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Afinação da arte de chutar pombos

(crônica publicada no site Vida Breve).

Outro dia postei que, num mundo perfeito, todos poderiam chutar pombos. Foi o que pensei certa vez, depois de muito divagar numa praça cheia deles. Mas calma lá, eu nunca chutei um pombo. Ainda não. Essa é só uma ideia agradável, em tal nível de crueldade que só não me sinto um ser profundamente vil porque descobri ser um desejo oculto de muita gente. Alguns já me confessaram esse fetiche, e uns poucos afirmaram terem chegado às vias de fato, em relatos plenos de satisfação e alívio. No entanto, embora eu nunca tenha manifestado esse impulso em nenhum aspecto prático, venho aqui registrar um ornitobullying: venho sendo constantemente atacado pelos pombos do Largo do Machado, que fazem tocaia até que eu saia da estação do metrô, avançando logo em seguida numa revoada colossal. Não pode, poxa.

E lá vem a patrulha de defesa dos animais et coetera. Mas troco aqui a importante PETA por uma simples peta: não é correto chutar pombos, mas como seria bom se fosse… A imagem da pombinha branca, que é o símbolo da paz, remete a Noé: a ave retornou para a arca trazendo no bico um raminho de oliveira, indicando que era o fim do dilúvio a terra firme já aparecia. E o que não dizer dos bravos pombos-correios, esses antepassados de cada e-mail que trocamos todos os dias, que cruzavam distâncias inimagináveis, enfrentando intempéries e vicissitudes, sem julgar a relevância ou eventual banalidade da informação que carregavam?

Tudo bem, mas não posso evitar a menção a um episódio traumático. Há uns 15 anos, atravessando a rua, fui atingido por uma dejeção certeira originada de um pombo, que resvalou na cabeça, ricocheteou na lente dos óculos e se estendeu camisa abaixo. Segui desnorteado, até que chegando à outra calçada esbarrei com uma conhecida, cujo oi inicial precedeu uma frase de profunda compaixão diante do meu estado, como se dirigida a quem acabasse de perder um ente querido: “Não precisa dizer nada…”

Daí que aceito os pombos no geral, mas a questão é particular. Muito se tem falado a respeito dos males trazidos por essas aves. Hoje mesmo assisti na TV a uma reportagem informando que, em Londrina, iriam multar quem os alimentasse. Lembro-me também de uma crônica do João Ubaldo, na qual ele sugeria que os pombos dos centros urbanos poderiam até ajudar a matar a fome de muita gente. Não feito codorninhas, mas processados e triturados numa rica farinha proteica. Calma lá, eu não chego a tanto, mas acredito que o escritor baiano possua sentimento parecido com o que escondeu o poeta Raimundo Correia, famoso pelo soneto das pombas. No primeiro quarteto ele diz:

Vai-se a primeira pomba despertada…

Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas

De pombas vão-se dos pombais, apenas

Raia sanguínea e fresca a madrugada…

Acredito que as regras de polimento dos parnasianos tenham impedido o poeta de tratar diretamente do horror que sentia diante dos pombos. Reparando bem, esses decassílabos poderiam ser declamados numa das cenas de “Os pássaros”, do Hitchcock. E vejam: com direito a sangue fresco na madrugada…

E redigo: nunca chutei um pombo sequer. Tinha um acordo tácito com eles, tal como naquele episódio de Seinfeld, no qual George Costanza atropela, tropeça nos pombos e depois reclama com razão: “Nós tínhamos um pacto!”

Tomei emprestado para esta crônica o título do conto bastante conhecido do João Antônio, em que o escritor, com sua malandragem peculiar, trata de chutar tampinhas de garrafa: “É doce chutá-las bem baixo, para subirem e demorarem no ar”. E é assim que vai ser agora. Se os pombos do Largo do Machado tiveram acesso à minha frase inicial sobre o mundo perfeito para iniciarem essa onda de agressão, irão ler este texto aqui também, e tratarão logo de ir cantar de galo em outra freguesia. Porque agora, ratos com asas, ao contrário de vocês, eu não terei pena. Se os ataques não cessarem, sugiro colocarem um Sinatra cantando “Fly me to the moon” como trilha sonora do que virá. E podem até chamar em seu auxílio Hélio Bicudo, Jarbas Passarinho, Palomas e Colombinas, porque a guerra está declarada. Pombas!

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Não somos mais tão jovens

(crônica publicada no site Vida Breve)

Nós somos feitos de tempo — ou, pelo menos, do que vai sobrando ao longo de uma erosão contínua. Essa abstração que nos acompanha por toda a vida se torna mais aguda quando somos tomados pela intuição do instante (peguei esse termo do Gaston Bachelard), muitas vezes em situações extremas, como a perda, uma realização pela qual lutamos ou numa experiência estética. O poético que salta do prosaico.

Ouvir Legião Urbana sempre foi, para mim, um breve mergulho nessa possibilidade. Lembro-me bem das cenas: por volta dos meus dez anos, todos os garotos queriam decorar a letra de “Faroeste caboclo” escrita em folhas de caderno arrancadas ou copiadas em mimeógrafo; depois, todo mundo cantava o amor nos versos de “Monte Castelo”, que citava a Bíblia e Camões, ultrapassando qualquer risco de pieguice; em seguida, a nova fase era cantar “Vento no litoral” diante de uma — tão natural e necessária — desilusão amorosa; por fim, só caberia perguntar, hoje em dia, como é que se diz eu te amo.

Ouvir uma banda querida e fazer com que ela se torne um marcador de páginas da nossa memória é algo muito subjetivo. Cada um tem a sua trajetória, de acordo com os episódios vividos. Mesmo os fatos que levaram Renato Russo a escrever cada uma dessas letras são diferentes e únicos, e isso fica claro nesse novo filme sobre a juventude do roqueiro de Brasília — e mais ainda na ótima biografia O filho da revolução, do jornalista Carlos Marcelo. Mas o interessante é como, por um processo estranhamente metonímico, a obra lírica trata do eu se desdobrando para resumir o mundo. Desse modo, a indignação política, uma dor de separação ou mesmo uma pequena revolta com os pais estavam devidamente contemplados nas letras da Legião Urbana. Com isso, a banda nos pescou como uma tarrafa imensa, contribuindo para a educação sentimental de toda uma geração.

Que mais? Crescemos. A Legião Urbana acabou em 1996, permanecendo com uma juventude eterna representada na morte precoce do seu líder. Mas todos nós crescemos e tentando, meio sem querer, aplicar o que ouvíamos naquelas letras, ora adaptando-as às novas questões, ora procurando outras canções que dessem conta da realidade, como todos fazem. Há alguns anos, enquanto dirigia ouvindo Legião, pensei em fazer uma história inspirada numa das letras. Acabei descobrindo que outros autores também gostariam de fazer isso, resultando numa antologia de contos que não só espelhou o nosso saudosismo geracional como também atraiu muitos leitores bem mais jovens, alguns nascidos depois que a banda acabou.

Nós não somos mais tão jovens. Para a minha galera seminova, a obra da Legião Urbana consegue ser no máximo (e isso já é muito) o elemento catalisador de uma viagem no tempo, uma fotografia na qual está registrado o sorriso da nossa adolescência torta. No entanto, é muito interessante constatar que todas as questões contidas naquelas letras vêm se renovando em novos olhares. Daí que esses movimentos sejam cíclicos, poéticos e pulsantes, ultrapassando qualquer tentativa de se datar o universal tão íntimo que cada um sofre, sente e procura.

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Ai de ti, Barra da Tijuca

A propósito do centenário do Rubem Braga, desengavetei (em tempos de cliques, esse verbo agora é só um modo de dizer) essa crônica que fiz lá por 1998, quando escrevia num jornal de Jacarepaguá. Nessa época de aprendizado (meio da graduação em Letras), fazia paródias ou pastiches das leituras de que mais gostava.

“No final da década de 50 fez muito sucesso uma crônica do mestre Rubem Braga, intitulada ‘Ai de ti, Copacabana!’, na qual o bairro teria um fim apocalíptico. A Princesinha do Mar não foi destruída, mas sua decadência hoje evidente confere ao texto um tom semiprofético. Como dizem que a Barra da Tijuca equivale à Copacabana dos anos dourados — na verdade, nem de longe — fica aqui registrada também uma crônica equivalente, guardadas as devidas proporções (tanto dos bairros quanto dos cronistas).

1. Ai de ti, Barra da Tijuca, pois tua orla em forma de sorriso parece uma boca chorosa quando vista do oceano.

2. Ai de ti, Barra da Tijuca, porque não tens o glamour daquela que queres imitar, nem a grandiosidade original dos seus habitantes.

3. Ai de ti, Barra da Tijuca, porque tua praia revoltosa irá consumir as ruas, e as ondas que tanto divertem os surfistas serão como dentes impetuosos.

4. E tudo quanto foi aterrado tornará a ser domínio de Iemanjá, pois o mar vai ceder seu corpo à lagoa de Marapendi, e ambos se abraçarão para reconquistar o espaço que lhes pertence.

5. E os teus emergentes virão à tona, estáticos, tal como as dejeções dos teus canais de esgotos irregulares.

6. Grandes são teus shoppings, mas cartão de crédito algum pagará a isenção das águas, que os tomarão totalmente despreocupadas com as aparências.

7. Ai daqueles que, bêbados, cruzam as Américas e a Sernambetiba nos seus carros importados, porque pensarão ser delírio quando virem as pistas alagarem-se, e nesse momento de nada valerão os motores possantes.

8. E os pampos nadarão nas casas dos condomínios, sem terem de se identificar na portaria sob os holofotes dos porteiros engravatados.

9. E serão em vão os esforços dos empreendedores em transformar, às pressas, a Terra Encantada num parque de águas, pois essas mesmas pessoas serão levadas junto com as instalações.

10. Ai de ti, Barra da Tijuca, porque os teus altos prédios com nomes em inglês se esfacelarão; já recebeste o aviso, mas ignoraste, e por isso tais estruturas retornarão do pó ao pó, da areia à areia.

11. E após a reconquista das águas nenhum idioma se imporá ante olhos e ouvidos impressionáveis, pois na calmaria submersa reinará o silêncio, a mais universal das línguas.

12. E tua Estátua da Liberdade revelar-se-á também um monumento descartável, tendo o corpo dissolvido ao breve toque da comoção fluida.

13. Pois grande tem sido a tua vaidade, Barra da Tijuca; por isso teus poucos refugiados procurarão com humildade abrigo na Cidade de Deus e no Rio das Pedras, e estes os acolherão.

14. Malha artificialmente em academias, ri com luxúria pela noite enquanto tens tempo, bronzeia-te do Quebra-Mar à Pedra da Macumba, porque em breve conhecerás a devastação e a fúria. Curte o teu último point, Barra da Tijuca!

 

Aliás: TUDO BEM, O HOMEM É UM SER POLÍTICO. MAS E O POLÍTICO, É UM SER HUMANO?”

 

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Book trailer “O livro branco”

 

 

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Convite lçtos Rio e Sampa

Clique no convite para visualizar melhor.

 

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O livro branco

E saiu do forno O livro branco, antologia de contos inspirados em músicas dos Beatles. A ideia foi basicamente a mesma doComo se não houvesse amanhã (que teve a Legião Urbana como inspiração): pegar a canção preferida dos Fab Four e criar uma história.

Chamei autores com diferentes vozes narrativas e todos se empolgaram com o desafio. No final, o livro ficou com essa diversidade boa – tal como o próprio Álbum branco – e costurado com o fio dos Beatles. Espero que os leitores curtam.

Eis os participantes: Ana Paula Maia, André de Leones, André Moura, André Sant’Anna, Carola Saavedra, Fernando Molica, Felipe Pena, Godofredo de Oliveira Neto, Henrique Rodrigues (sim, fiz um a partir de “Hey Jude”), Lúcia Bettencourt, Marcelino Freire, Marcelo Moutinho, Marcia Tiburi, Marcio Renato dos Santos, Maurício de Almeida, Nelson Motta, Rafael Rodrigues, Simone Campos, Stella Florence e Zeca Camargo.

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Em O Globo

Outro dia saiu essa matéria bem legal no Globo Barra.
Clicando na imagem dá para ler melhor. Tem também a versão online aqui.

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Próximos livros

Tenho postado pouco aqui por conta da correria desse início de ano, muito trabalho e tal.

Mas o tempo não para e alguns livros novos estão em andamento:

1 – Dia 29 de abril vou lançar o livro infantil novo: Alho por alho, dente por dente (poesia, pela Memória Visual), que escrevi com o camarada André Moura e terá as belas ilustras da Júlia Lima. Vai ser no Salão FNLIJ.

2 – Melhor que eu falar do outro projeto é reproduzir o que saiu na coluna “Babel” d’O Estado de São Paulo:

BEATLEMANIA LITERÁRIA

Depois de organizar o livro Como Se Não Houvesse Amanhã (Record), com contos de autores brasileiros inspirados em músicas da Legião Urbana, Henrique Rodrigues corre para aprontar outra coletânea. Convidou Adriana Lisboa, Ana Paula Maia, Carola Saavedra, André de Leones, Marcelino Freire, Marcelo Moutinho, Felipe Pena e Zeca Camargo, entre outros, para escreverem textos a partir de canções dos Beatles. O Livro Branco será lançado pela Record em junho para a festa de 70 anos de Paul McCartney.

E vamo que vamo.

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sobre Eloá, Nayara e Lindemberg

Assim como ocorreu com muitas pessoas, em 2008 fiquei bastante arrasado com esse caso. Na época, fiz essa crônica para tentar suportar o sentimento.

ELEGIA DA PAIXÃO DESMEDIDA

“O amor não deixa sobreviventes.” Nelson Rodrigues

Semana passada um jovem sequestrou a ex-namorada, que acabou morrendo. Não foi a primeira vez que a população pôde acompanhar ao vivo um crime no caldeirão da fervura urbana. Tampouco é inédito que todos os meios de comunicação ponham foco num único fato devido à audiência certa. No mesmo conjunto, seqüestro com morte por ação questionável da polícia também não é novidade. Não me interessa a (falta de) ação das autoridades etc. No mesmo dia em que acabou o incidente, vi que os civis e militares estavam se batendo em São Paulo, então é melhor deixá-los assim e assumirmos que não dão conta de pôr ordem na realidade. Se a polícia não se entende, não sou eu quem vai entendê-los.

No entanto, algo nesse episódio me comoveu de forma inesperada, como se ali estivessem contidas algumas senhas e chaves para o entendimento desse mundo caduco. Alguns aspectos são bem simbólicos em tudo o que ocorreu, que para mim caracterizam o caso como uma tragédia das mais clássicas.

Essa rede simbólica já começa com os nomes dos envolvidos, cuja etimologia aponta para alguma possibilidade de atribuir sentido ao fato. Eloá, nome de origem hebraica, é uma das formas de se pronunciar o nome de Deus; Lindemberg era um nome comum entre nazistas; a amiga Nayara, em grego, significa “aquela que comanda”.

As tragédias gregas se baseavam na idéia de que o herói ultrapassou o seu métron, que seria o limite de cada um, e cometia a hybris, um tipo de orgulho desmedido. Por isso, deveria sofrer a hamartía, a punição divina, que no caso do teatro clássico possuía um fim didático, servindo para mostrar ao povo que certos espaços não podiam ser ultrapassados.

Terminado o namoro, Lindemberg não teve a experiência necessária para entender que o amor acaba. Embora sete anos mais velho, amou Eloá de forma imatura. Vítima da perspectiva adolescente, via o mundo como possibilidade ilimitada, o tempo como distância de eternidade e a paixão como mergulho infinito. O amor sempre exige a transcendência, quer expansão. Uma vez que não seja possível expandi-lo via conquista, lança-se mão dos artifícios de domínio.

Essa hybris de Lindemberg o fez tomar por força o seu objeto de devoção e culto, sua manifestação divina encarnada numa jovem.  Mesmo sem antecedentes criminais, foi necessário entrar no território do comportamento criminoso pelo descontentamento com a rejeição. Lindemberg invadiu o espaço da liberdade alheia para impor os seus desejos. O amor se converteu na sua face mais doentia, a da falsa sensação de posse – porque ainda hoje há quem creia na idéia de se ter algo ou alguém como um objeto -, em detrimento da cessão e da troca.

Ao matar Eloá, Lindemberg assassinou o que o aproximava de Deus. Quis dominar o que não se presta a ter dono: Deus e a mulher. À amiga Nayara, aquela que comanda, restou a tentativa de mediar o conflito, tendo exercido de fato a indevida função de negociadora, porém foi silenciada com um tiro na boca. Impotente, a polícia silenciou o seqüestrador com balas falsas.

Apontar culpados é antes procedimento jurídico ou necessidade de justiça do que se assumir que nesse tipo de caso todos acabam sendo vítimas. Parece que Lindemberg não sabe ainda que sua ex-namorada morreu. Quando souber, vai sentir a sua hamartía, e provavelmente terá a dura ciência de que nunca mais poderá amar e ser amado de forma minimamente sadia.

É preciso lucidez e maturidade para se despedir, inclusive do amor. Lindemberg, Eloá e Nayara nos fazem lembrar que o aspecto trágico da condição humana nos situa na dimensão da finitude, e que esse é o intervalo que foi reservado para a manifestação da nossa intensidade.

E por não compreender o tempo da ausência, esse rapaz nem pôde aprender que o amor também é abnegação – e às vezes requer apenas tocar a vida e deixar a moça ir embora para sempre.

Rio, 21/10/2008.

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Papo sobre humor

Hoje vou mediar o papo sobre crônicas de humor – assunto que muito me interessa – com os grandes Tutty Vasquez e Marcelo Madureira. Aparece lá.

 

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