Author Archives: Henrique

Na Flip

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Nesta semana sigo para a minha 14ª Flip. Seguem as participações em Paraty:

Casa Rocco – Quinta-feira (30/06) 17h – “Palavras de cidades, cidades de palavras”. Vou falar com o camarada Marcelo Moutinho. Mediação do Bruno Fiuza.

Casa Sesc – Sexta-feira (01/07) 20h – Vou mediar o papo com os vencedores do Prêmio Sesc de Literatura 2016, os talentosos Franklin Carvalho e Mário Rodrigues.

Off Flip das Letras – Praça da Matriz – Sábado (02/07) 12h – “Fronteiras e sombras: o jogo entre a ficção e o real”. Vou conversar com Taylor Diniz. Mediação de Flávio de Araújo e Stéphane Chao. E logo em seguida, às 13h, vou autografar meu romance “O próximo da fila”.

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Assunto Gerais

O escritor sem livro

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Aproxima-se a Flip, o evento cultural mais legal de São Paulo. Epa! A Festa Literária de Paraty acontece geograficamente no estado do Rio, na pontinha sul fluminense, mas quem já foi sabe que se trata de um evento fundamentalmente paulista. O que é até bom. As trocas só se dão com o diferente.

Fui a todas as edições, seja para flanar e encontrar amigos, como nas primeiras, participar de programações, como outras, ou a trabalho. As últimas têm sido a junção dos três itens, motivo pelo qual tenho saído de lá esgotado. Mas vale cada tropeço naquelas pedras de pé de moleque.

Lembro-me de certa vez, quando escritores de literatura ainda eram a maioria na programação principal, que determinado convidado nunca havia publicado um livro. Não contavam participações em antologias, tampouco os blogs literários, que estavam em alta na época como espaço democrático para se chegar ao leitor e mesmo para que os autores se conhecessem. O importante era ter livro publicado.

Faz todo sentido pensarmos que o escritor se legitima ao ver seu trabalho impresso, costurado ou colado em cadernos cercados por uma capa bonita, com ISBN no verso, texto da orelha com pequena biografia e uma logo de editora, carimbando um selo de qualidade no título e autor. Assim como cineasta aquele que fez e exibiu um filme, artista plástico quem expôs suas produções, músico quem apresentou um espetáculo com suas composições ou de outros, e por aí vai. Coordeno um projeto que descobre autores inéditos, protegidos por pseudônimo, e os coloca numa grande editora. A ideia é que, publicados, iniciem uma carreira literária. Mas a literatura, líquida e etérea, tem algo a mais que foge desse sistema.

Há uns anos, quando frequentava oficina literária, conheci o escritor e jornalista (hoje amigo, felizmente) José Castello. Li de uma tacada o seu livro “Inventário das sombras”, no qual relata a sua experiência com escritores como Hilda Hilst, Raduan Nassar, Bioy Casares e Clarice Lispector. Mas um capítulo me chamou a atenção: “João Rath – o escritor que não escreveu”. Tratava do jornalista com quem Castello convivera, e que possuía uma imaginação muito fértil, como se do seu entorno brotassem narrativas das mais variadas: personagem de um livro jamais escrito. Daí que um conceito de literatura tenha aparecido e me acompanhado desde então, o de que o livro é apenas parte de algo maior. De todas as artes, considero a literatura a mais abstrata, pois ela se dá fundamentalmente no campo das ideias, um mundo silencioso e abstrato que cada indivíduo possui. Assim, o escritor cria como se fosse uma mistura de fonte e mensageiro, meio de campo que faz um lançamento para o seu atacante (o leitor) lá na frente, na esperança de que a jogada termine com um gol.

Estou escrevendo esta crônica em Ribeirão Preto, antes de dar uma palestra na feira do livro local. Há uns dias, uma escritora iniciante reclamou que havia participado de um evento desses e, ao terminar, não havia seu livro para venda aos interessados. Esse paradoxo é bastante comum nos eventos literários de todo porte e incomoda muitos autores, que saem de suas cidades para divulgar algo que não existe para o público presente. Isso renderia outra crônica – ou talvez uma reportagem mais séria e pretensiosa, e fica a dica aos jornalistas da área. No entanto, nossa literatura também está presente nas perguntas, nas conversas e nos abraços partilhamos com os leitores: mesmo nas selfies que adolescentes tiram conosco, para depois nos levar para suas redes sociais. São diferentes jogadas nesse futebol complexo e difícil que é ser escritor no Brasil.

“Livros são papéis pintados com tinta”, já disse o Fernando Pessoa no seu conhecido poema “Liberdade”. Não sei ainda se haverá livros meus para venda ou mesmo se haverá quem se interesse por eles. Trouxe uma meia dúzia na mochila, os quais geralmente não voltam, mas o importante mesmo é a possibilidade da troca de ideias, levar e deixar algo do campo. E se ao fim dessa jogada não houver gol, bater na trave já terá sido um grande lucro.

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Assunto crônica

POEMAÇO contra o olvido

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Semana passada estive no Ciep que havia sido invadido e depredado. Conforme ameacei na crônica anterior, reuni um grupo de escritores de primeira e fomos lá conversar, ler poesia, gritar, rir e chorar com alunos e professores. Apelidamos o evento de POEMAÇO (assim, em maiúsculas mesmo) e fomos lá no famoso CDA, como é conhecido o Centro Integrado de Educação Pública Carlos Drummond de Andrade.

Fui aluno dessa escola em 1989, ano importantíssimo da nossa história – tanto que usei como ponto de partida para o primeiro romance: queria revisitar a época transportado com o olhar da ficção. Antes, meu irmão e eu tínhamos sido alunos de outro Ciep, na Av. Brasil, onde também retornei há uns anos para conversar com umas turmas. Sempre que passo em frente a essas escolas, um pequeno filme é exibido na cuca, tanto das coisas boas quanto das ruins que aconteceram nesses espaços.

Nosso pingue-pongue sobre a tampa da caixa d’água, vez por outra, era interrompido por um tiroteio que nos fazia correr para dentro do prédio. Nesse período fazemos amigos de quem temos saudade a vida inteira. Reencontrá-los nas redes sociais ameniza um pouco, mas a vida adulta mostra naquelas fotos apenas umas frestas da lembrança, uns vestígios dos garotos que um dia fomos, num sentimento mezzo doce mezzo triste.

Veio agora uma frase do Millôr Fernandes: rever é perder o encanto. Mas revisitar a escola onde se estudou é outro lance. Voltar para o Ciep CDA teve agora um sentido maior que um reencontro – mesmo porque tenho ido lá nos últimos anos, regularmente, inclusive uma aluna me mostrou no celular uma foto nossa do ano passado. Agora a escola tinha sido invadida, quebrada e roubada, como se já não bastasse o abandono pelo qual vem passando ao longo de tantos anos, de tantos governos.

Assim como vários escritores, tenho um carinho especial por escolas. Mesmo não sendo um autor de editoras didáticas – essas que fazem um trabalho mais incisivo nas redes públicas e particulares, algumas colocando a visita do autor condicionada à adoção dos seus livros –, raramente recuso um convite, dando um jeito de encaixar no meu pouco tempo livre. Fui professor de sala de aula por apenas um ano, depois mais um em cursinho, e abandonei uma matrícula da rede estadual mesmo antes de assumir o cargo. Creio que a presença na condição de autor permita um tipo de didática diferente sobre ideias e livros, que se soma ao trabalho da escola – ou talvez só sirva para isso mesmo. Há uns anos, aceitei o convite da Secretaria de Educação do Estado para um cargo de gestor, confiante na possibilidade de fazer mais pela rede pública. Nas reuniões com as outras chefias, via mais especialistas em Power Point e anglicismos da moda do que gente preocupada com os muitos problemas por que passam as escolas. Tratar de questões diretamente ligadas ao ensino era, muitas vezes, motivo de piada, num tipo perverso de bullying. Minha indignação só aumentou.

Assim como política, religião e futebol, é comum encontrarmos a todo tempo especialistas falando bonito sobre educação. De candidatos bem-intencionados a tubarões que fornecem serviços e produtos salvadores, soa estranho quando vemos o que de fato chega à garotada, o que realmente se converte em ensino.

Daí a importância do POEMAÇO. Foi nessa escola que li pela primeira vez o poema “Memória”, do Drummond. O verso “nada pode o olvido” foi estranho porque não conhecia essa palavra – parecia “ouvido” escrito errado. E aprendi, para nunca olvidar, que significava esquecimento.       Semana passada tivemos mais um dia de aula. Écio Salles, Flávia Côrtes, Otávio César Jr. e Letícia Brito, meus atuais colegas de ofício, foram lá comigo e me ajudaram a misturar a vida da escola com a escola da vida, dizendo para aqueles jovens que nunca se esqueçam daquele tempo precioso. Conforme aprendi num livro de literatura, a poesia é atemporal, e por meio dela é que podemos aprender sobre passado e futuro, como se fosse nosso dever de casa.

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Assunto crônica

Uma canção para as Beatrizes

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Adolescente luta para superar trauma de estupro coletivo na Praça Seca

Os alunos do Ciep municipal Carlos Drummond de Andrade,
na Praça Seca, Jacarepaguá, estão sendo praticamente
expulsos da unidade, devido aos ataques frequentes
de vândalos e bandidos. No fim de semana passado,
o Ciep foi invadido e totalmente depredado.

Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças. “Canção amiga”, poema de Carlos Drummond de Andrade, na nota de cinquenta Cruzados Novos. Lançada em 1989, ano em que estudei no Ciep. Beatriz não tinha nascido ainda.

Em pouco tempo, a nota deixou de valer, e desapareceu. Mas a escola não foi tirada de circulação. Foram lhe tirando a carne, o ritmo, o alimento, mas a poesia dela continuou. O prédio, esse retângulo cheio de olhos para a rua, é uma carcaça de outros tempos gloriosos e imponentes, como um cemitério de elefantes. As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão. E ficaram.

Os homens adormeceram e despertaram as crianças. A Beatriz nasceu nesse mundo caduco, onde meus companheiros estão ainda todos taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Seguimos de mãos dadas.

Eu tinha 13 anos quando estudei no Ciep. A Beatriz não estudou lá, mas foi por essa idade que ela já despertou outra criança, porque foi essa a canção amiga que o mundo cantarolou nos seus ouvidos. E é a canção que continua reverberando em tantas beatrizes para as quais estamos cegos.

Foi semana passada que aconteceu essa mescla trágica dos abandonos.

Por isso eu te peço perdão, Ciep, por te estuprarem.

Por isso eu te peço perdão, Beatriz, por ter sido invadida.

Eu te peço perdão, Ciep, pois quem devia te proteger foi te deixando pouco a pouco à mercê da crueldade animalesca dos homens e do mundo.

Eu te peço perdão, Beatriz, por dizerem que a culpa foi tua, por não haver porteiro nem vigia noturno, e tuas instalações estarem acessíveis para qualquer um que estivessem de passagem por ali.

Eu te peço perdão, Ciep, por te dilacerarem covardemente. Dói na alma, mais que no teu útero, e só tu entendes, só tu sentes as consequências que virão nas sombras de cada dia.

Tu sabias dos riscos, Beatriz, apesar da aparente segurança do teu entorno. E assim foi que te lançaste à sorte dos murmúrios, da oferta fácil para quem quisesse violar os teus recursos.

Enquanto tu dormias, Ciep, invadiram também os teus sonhos, e eles foram depredados quando deviam ter sido erigidos por essa massa abstrata que chamamos de sociedade.

Somos e seremos sempre os teus alunos, os teus filhos, teu reflexo mais profundo. E é por isso, Beatriz, que o teu abandono não é absoluto nem permanente. Tua estrutura permanece, e de ti não desistiremos.

Porque o que te levaram, Ciep, não destrói em definitivo a tua estrutura, que é humana.

Tu não és a primeira Beatriz invadida e depredada, tu não és o primeiro Ciep estuprado. Tampouco garantimos que serão os últimos.

Mas apenas hoje, no espaço limitado e tímido de uma crônica, eu te peço perdão, mas espero que não nos perdoe. Sobretudo, não nos perdoe, pois do perdão salta-se rapidamente para o esquecimento. Não nos perdoe, porque tu és a verdadeira rosa do povo, e rogo que nos lembre a cada dia do cuidado com a tua existência bela, imperfeita e necessária.

P.S.: amanhã, dia 01/06, vou ao Ciep Carlos Drummond de Andrade com outros escritores voluntários para um dia de atividades culturais oferecidos a alunos e professores, que estamos chamando de POEMAÇO. Esta crônica será lida em homenagem à Beatriz.

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Assunto crônica

No balcão da livraria

(crônica publicada no site Vida Breve)

Nesta semana fiz a moderação de um debate cujo título era “O paraíso é uma espécie de livraria”. Tratava-se de uma referência à famosa frase do Jorge Luis Borges. Na verdade, não era uma frase, e sim um verso. Ou melhor, dois, do belíssimo “Poema de los dones”. O texto do Borges diz, decassilabicamente: “yo, que me figuraba el Paraíso / bajo la especie de una biblioteca”. Posso estar errado, mas talvez tenha havido uma confusão ao traduzirem o termo para o inglês (library) e depois voltou ao português na chamada casca de banana, em que palavras parecem uma coisa e na verdade são outras.

Palavras parecem uma coisa e na verdade são outras. E não é essa lacuna de equívocos, armadilhas, brincadeiras e jogos entre o que se lê e o que se pensa que se constrói toda a literatura? Posso estar errado também. Mas rogo à leitora que pare esta leitura e dedique uns minutos do seu tempo para ouvir o próprio Borges falando o “Poema de los dones” aqui. Se gostou da voz do escritor argentino, a leitora pode lê-lo aqui. E depois, se quiser ter acesso a ele o tempo inteiro, entre numa livraria e compre um livro dele.

Uma coisa boa de mediar um bate-papo entre escritores é que ouvimos mais do que falamos. Daí que tive uma breve aula com os autores que compunham a mesa. Entre a jovem Alice Sant’Anna e os seminovos Marcelo Moutinho e Flávio Carneiro, aprendi muito sobre a história das livrarias no Rio de Janeiro, com toda a vivência cultural que permeia esse comércio, do século XIX para os nossos dias.

Foi perguntado aos participantes sobre o quanto a presença em livrarias contribuiu para que eles se decidissem pelo ofício literário. E gostei muito de saber que o primeiro emprego da Alice foi numa livraria. Que privilégio entrar no mundo do trabalho com livros e pessoas ligadas a esse universo nos cercando. Não pude deixar de comparar, mentalmente, com o meu primeiro emprego numa lanchonete, e como teria sido se, no lugar de hambúrgueres e batatas fritas, houvesse livros. Mas logo em seguida me dei conta de que vários caminhos podem levar a um mesmo fim. De todo modo, como seria bom para o país se a vida profissional de muitas pessoas fosse iniciada numa livraria…

Por conta da polêmica em torno da extinção do Ministério da Cultura, que passaria a ser uma secretaria do MEC (e enquanto escrevo esta crônica fico sabendo que a governo recriou o MinC), fiquei espantado ao ver a reação de tanta gente sobre a área das artes. Muitas pessoas acreditam firmemente que cultura é algo secundário e dispensável, que agora sim, sem o dinheiro fácil do MinC, os chamados “artistas” iriam trabalhar. Como tanta coisa atrasada que temos, ainda persiste uma visão segundo a qual as atividades ligadas às artes são fruto de desvario e falta do que fazer. A literatura, mais solitária das artes, seria um lance de nefelibatas, aqueles que vivem nas nuvens.

E não deixa de ser, mas também. Ou melhor, vamos às nuvens e aos infernos, mas retornamos. A arte salta da vida e volta para ela, trazendo novas formas de ver e entender o mundo. Trabalhar nessa área é, também, mergulhar nos limites do entendimento humano, algo de risco e que precisa ser respeitado e valorizado.

Temos poucas livrarias no Brasil, algo em torno de três mil. É bem pouco, se considerarmos o aumento do poder de compra que a população em geral teve nos últimos vinte anos. Gastar dinheiro com esses objetos está bem longe das prioridades para a maioria da galera, cujas urgências são outras, quase sempre, essas sim, bem mais efêmeras. Inclusive sou bastante solidário ao escritor Marcelino Freire: nem a parentada compra os livros que ele escreve e publica. O Brasil não está lá, longe e abstrato, mas bem aqui, do nosso lado, no atacado e no varejo.

E é impossível não associar uma coisa à outra. Enquanto as pessoas não entenderem que a leitura abre cucas, que a arte é fundamental para o crescimento humano, vão ficar para sempre de fora desses paraísos que temos à disposição – sejam livrarias ou bibliotecas.

 

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Assunto crônica

Manoel de Barros como antídoto para o mundo caduco

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(crônica publicada no site Vida Breve)

Estive por esses dias entre Campo Grande e Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Ainda que minha ida para aquelas bandas tenha sido em missão de trabalho, tentei aproveitar cada intervalo para ler as entrelinhas das cidades, como sempre faço. Nunca tinha ido a esse estado, de modo que, entre reuniões e visitas a espaços durante manhã, tarde e noite, me vali da perspectiva da primeira vez para ser tomado pelas surpresas das descobertas.

Levei comigo na bagagem de mão, além do livro de contos do Alberto Mussa (escritor carioca que é uma mistura do nosso melhor amigo da vida inteira com Jorge Luis Borges) e o Nintendo portátil, o volume das “Memórias Inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros”. Há umas semanas tinha salpicado um verso desse livro para uma revista, que me pediu cinco frases de livros que me marcaram na vida. Por frase entendi também verso. Acho que basicamente a diferença entre os dois é que, no caso do verso, você não precisa ser egoísta de ocupar a linha inteira, deixando um espaço para o leitor preencher, mesmo que seja com a cuca.

E foi com o embalo dessa leitura que a cidade me recebeu: com lacunas e incompletudes que, numa paradoxal flânerie às pressas, um vagar corrido, fui escrevendo com o supetão de quem precisará voltar lá em não muito tempo. Disseram-me, e logo confirmei, que os sul-mato-grossenses são apaixonados por Manoel de Barros.

Sul-mato-grossense: esses hifens fazem a palavra parecer um trem. Existe por lá o Trem do Pantanal, que antigamente fazia o trajeto Bauru até Corumbá, mas foi desativado. Hoje faz apenas o trecho de Campo Grande até Miranda, mas hoje pouca gente procura por ser um passeio lento demais, e preferem pegar logo a estrada, mais rápida. E foi nela em que um oceano composto por centenas de bois brancos surgiu, desacelerando o trajeto, ruminando o tempo. Boitempo, como o do Drummond.

Manoel de Barros, que criou gado e devia saber disso, nasceu em Cuiabá, mas se mudou cedo para Corumbá e viveu boa parte da vida em Campo Grande. Imagino que os dois estados do Mato Grosso, o com Sul e o sem Sul, devam requerer a paternidade do poeta pantaneiro. Mas de tanto falar da terra e das miudezas, Manoel de Barros transcende qualquer chão, universal feito a cócega e a chuva.

Em dezembro o poeta faria 100 anos. Provavelmente lá as pautas dos jornais vão se voltar para o assunto e muita gente vai ler, mesmo que só pela internet, alguns poemas do Manoel. Não sei como estaremos lá no fim do ano: as previsões econômicas não são boas e nas redes sociais há um tempo as pessoas estão iradas e cheias de certezas sobre as coisas e o mundo. Sorte que economia, apesar da rima, é o oposto da poesia, e que a tecnologia ainda não conseguiu parar as rodas do tempo ou trazer imediatamente, para a vida real, a violência de um post.

Em Corumbá, zapeando a televisão no hotel, assistia aos depoimentos dos senadores. Tratava-se, provavelmente, do fato mais importante que acontecia no país naquele dia, naquela semana, neste mês. Mas para mim – e digo isso até com a não-saudade de quando trabalhei no governo e descobri que tudo lá é um grande teatro – o fato mais relevante desses dias foi conversar com uma turma de garotos sobre criação literária na beira do rio Paraguai, na fronteira com a Bolívia. Tratava-se, ali sim, de discussão séria sobre como reinventar o mundo por meio das palavras e das ideias.

Tecnicamente, o Manoel de Barros utilizava recursos simples e profundos. Entre a humanização das coisas e a coisificação do homem, lembrava da importância daquilo que, ao que parece, a humanidade está deixando para trás. Então em dezembro, talvez, a gente se lembre um pouco mais das inutilezas do que nos cerca, como um antídoto para dias tão prosaicos.

Por alguns instantes, pelo menos, seremos todos tão livres e importantes quanto o menino que carrega água na peneira.

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Clipping

Uol

O escritor Henrique Rodrigues, 40, esteve por Paris há pouco tempo. Por lá participou da Primavera Literária Brasileira, na Universidade de Sorbonne e do Salão do Livro da cidade. Também conversou com jovens alunos da escola Lycée Sophie Germain – papo que dividiu a atenção dos estudantes com os protestos que aconteciam pelas ruas de Paris no dia seguinte aos atentados em Bruxelas. Ainda teve tempo de jantar um dia no McDonald’s, onde ficou observando os atendentes – algo que sempre faz quando vai a lanchonetes do tipo – e tirou algumas fotos do seu mais recente livro tendo a loja como cenário.

Pode soar estranho um escritor aproveitar a passagem pela terra de Sade, Baudelaire e Balzac para ir a uma unidade da rede de fast-food e ainda aproveitar para clicar sua criação por lá, mas não no caso de Henrique. Seu mais novo trabalho, lançado no final de 2015, é o romance “O Próximo da Fila” (Record), sobre um jovem em busca de seu primeiro emprego, oportunidade que encontra justamente atrás do balcão de uma lanchonete.

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Assunto Gerais

Muito além das french fries

(publicado no blog da editora Record)

Nos últimos dias, participei de uma sequência de programações literárias na Cidade Luz, dentro do Printemps Littéraire Brésilien, promovido pela Sorbonne. Depois de dez anos da publicação do meu primeiro livro solo (“A musa diluída”, pela Record), e outros 10 títulos lançados, fiquei bastante feliz por ter meu trabalho reconhecido em outras terras, graças a Leonardo Tonus, coordenador do Departamento de Estudos Losófonos da universidade, professor que acompanha de longe, e com olhar de águia, o que vem acontecendo na cena literária brasileira contemporânea.

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Em Paris

Na próxima semana irei lançar “O próximo da fila” no Salão do Livro de Paris, e na sequência vou participar do Printemps Littéraire Brésilien 2016, na Sorbonne.

Em meio a isso ainda vou visitar o Liceu Sophie Germain para conversar com os jovens alunos!

 

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Sorbonne

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Jovens leitores

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